
Os pais. Muitos de nós tremem ao ouvir essa palavra, ou ao ouvi-los começar a falar. Muitos de nós associam-nos a coisas sem graça, chatas ou a, literalmente, fim de diversão. Sempre parece que eles estão por perto para nos limitar e reprimir, como se seu papel como responsável fosse acabar com a nossa felicidade. Quem nunca teve de aguentar o clássico “desliga esse computador!” ou algo como “você não faz nada dentro dessa casa!” e, em situações mais críticas, “eu sou seu pai/sua mãe e você tem de me obedecer!“? Então, aparentemente todos os nossos pais estudaram juntos na escola de como ser um bom pai e aprenderam todas as técnicas que utilizam ao longo do nosso crescimento. Às vezes, entretanto, eles não conseguem perceber que seus pequenos não estão mais tão pequenos assim, ou que a sociedade e os padrões de convívio, consumo e outras tantas coisas mudaram – nem sempre para melhor, mas não é produtivo focar no assunto agora.
Pois é, por mais difícil que seja entender, principalmente nos momentos em que as frases típicas dos pais são proferidas, é só uma preocupação por nosso bem estar. Ok, podemos considerar grande parte disso como algo excessivo, mas quem há de condenar excesso de amor, hã? No fundo, eles só querem o nosso bem, com tanta intensidade e perseverança que nós não conseguimos compreender. São capazes de sacrifícios inimagináveis e de atitudes insanas para nos manter protegidos. Aceitam, mesmo discutindo, nossos ataques de mau humor e nossos surtos de independência forçada e rebeldia sem causa, permanecendo fiéis ao nosso lado, prontos para ajudar a um primeiro sinal de desespero. Tentam se adaptar ao mundo em que nós – os pré-adolescentes, adolescentes, jovens adultos… enfim, a geração de agora - vivemos, perguntando, arriscando e até… sendo inconvenientes. Porque tudo o que eles não querem é perder o laço de afeto criado desde o nascimento, fortificado e/ou enfraquecido ao longo dos anos.
Bom, isso nenhum de nós quer, não é? Afinal, o que seria dos filhos se não fossem os pais para dar a mão e mostrar a solução em cada momento difícil? O que seria de Percy Jackson se sua mãe não tivesse força o suficiente para enfrentar
um casamento desagradável apenas para protegê-lo das criaturas mitológicas que, invariavelmente, perseguir-lo-iam? Ou de Harry, se não fosse o sacrifício que seus pais fizeram, abdicando da liberdade e escolhendo uma vida furtiva e, literalmente, trocando suas vidas pela do pequeno de olhos verdes? Talvez esses personagens nem estivessem vivos, talvez suas histórias nunca trilhassem o caminho pelo qual nos apaixonamos e não cansamos de re-acompanhar. Além disso, todo o universo da saga dos Olimpianos baseia-se no parentesco direto dos semi-deuses com os Deuses do Olimpo, não? Ou seja, pais e filhos. E, bem, se o Harry não fosse filho daqueles que enfrentaram Lord Voldemort três vezes, ele não se encaixaria na profecia e, portanto, não seria o foco da história. Mas não só merecem destaque Lily e James Potter, claro que não. E os pais de Neville, corajosos ao extremo, que enlouqueceram na tentativa de mantê-lo a salvo dos comensais? E os Weasley, criando com amor toda a prole que colocaram no mundo? Até mesmo Narcissa e Lucius, cuja preocupação com Draco superou qualquer filiação que eles possuíam com Voldemort e o caos que ele promovera.
Há tantos, tantos pais que merecem citação. A mãe dos Pevensie, que os mandou para um lugar seguro, longe da Primeira Guerra Mundial, sem querer iniciando o trajeto de seus filhos para Nárnia. Ou os pais de Lief, sábios o bastante para notarem a hora em que seu filho precisaria sair em uma busca que mudaria seu mundo. Há ainda Mo, pai de Meggie, que a ensinou a amar e respeitar os livros, viajar por seus universos fantásticos ou não, buscando sempre
algo onde se apoiar, onde se inspirar. Não se pode esquecer, também, dos meus pais, nem dos seus pais. Temos o costume tolo de achar que os pais dos outros são mais legais. Sinceramente? É exatamente por não convivermos com eles que pensamos desta maneira. No fim das contas, não há muita diferença entre a família da fantasia, a família do amigo e a minha ou a sua. Tirando fatores – a princípio e neste ângulo específico de análise – irrelevantes, como magia, criaturas mitológicas, Deuses, dinheiro e características físicas, basicamente é o mesmo esquema. O filho querendo ser compreendido e aceito a todo custo e os pais tentando compreendê-lo e aceitá-lo a seu modo.
Não é fácil, seria mentira dizer que sim. Mas o relacionamento de cada um de nós com outras pessoas não é fácil, por que com nossa família seria diferente? São pessoas distintas, como modos de encarar a vida completamente diferentes. O que fazer se seus pais não entendem o porquê de a fantasia ser tão especial na sua vida a ponto de gostar de imaginar mundos onde – você sabe, ele acha que você não sabe, mas você sabe disso; não se vive de ilusões, não completamente - você nunca poderá estar, fisicamente falando? Nada, só isso. Não é motivo para brigar, ou para ignorá-los. Talvez um mundo encantado seja demais para a mente deles e não se pode fazer nada além de aceitar. Sabemos o que estão perdendo, mas perderemos muito mais se tentarmos enfiar uma ideia à força. Não é nada agradável quando tentam fazer isso conosco, certo?
Nossos pais são nossos amigos mais velhos. Brigamos, brincamos, sorrimos, choramos, discutimos, concordamos, implicamos, amamos. De um jeito diferente a cada vez, mas em todas as vezes. Por mais que a raiva nos faça negar, há simplesmente uma ligação que não pode ser rompida. Nossos pais não são só a filiação na carteira de identidade. Podem ser incompreensíveis, intransigentes e autoritários. Mas nada disso importa mesmo quando sabemos que eles se importam com a gente. Com o nosso hoje e com o nosso amanhã. Eles estão repletos de uma magia que, até nós – teoricamente entendidos no assunto -, somos incapazes de apreender.
Contudo, sempre vale a pena tentar.